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Mostrando postagens com o rótulo Crônicas

12 Crônicas

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A nuvem − Fico admirado como é que você, morando nesta cidade, consegue escrever toda semana sem reclamar, sem protestar, sem espinafrar ninguém! Meu amigo está, como dizem as pessoas exageradas, grávido de razões. Mas que posso fazer? Até que tenho reclamado muito isto e aquilo. Mas se eu ficar rezingando todo dia, estou roubado: quem é que vai aguentar me ler? Além disso, a verdade não está apenas nos buracos das ruas e outras mazelas. Não é verdade que as amendoeiras neste inverno deram um show luxuoso de folhas vermelhas voando no ar? E ficaria demasiado feio eu confessar que há uma jovem gostando de mim? Ah, bem sei que esses encantamentos de moça por um senhor maduro duram pouco. Eles se irão como vieram, leve nuvem solta na brisa, que se tinge um instante de púrpura sobre as cinzas do meu crepúsculo. E olhem só que tipo de frase estou escrevendo! Tome tenência, velho Braga. Deixe a nuvem, olhe para o chão − e seus tradicionais buracos. (Adaptado de: BRAGA, Rubem. Ai...

10 Crônicas

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Mundo interior (Martha Medeiros) A casa da gente é uma metáfora da nossa vida, é a representação exata e fiel do nosso mundo interior. Li esta frase outro dia e achei perfeito. Poucas coisas traduzem tão bem nosso jeito de ser como nosso jeito de morar. Isso não se aplica, logicamente, aos inquilinos da rua, que têm como teto um viaduto, ainda que eu não duvide que até eles sejam capazes de ter seus códigos secretos de instalação. No entanto, estamos falando de quem pode ter um endereço digno, seja seu ou de aluguel. Pode ser um daqueles apartamentos amplos, com pé direito alto e preço mais alto ainda, ou um quarto-e-sala tão compacto quanto seu salário: na verdade, isso determina apenas seu poder aquisitivo, não revela seu mundo interior, que se manifesta por meio de outros valores. Da porta da rua pra dentro, pouco importa a quantidade de metros quadrados e, sim, a maneira como você os ocupa. Se é uma casa colorida ou monocromática. Se tem objetos obtidos com afeto ou ...

Alguém pagará - Crônica Narrativa

China proíbe vendas de terrenos na Lua As autoridades de controle do comércio proibiram uma empresa chinesa de vender terrenos na Lua por acreditar que este charmoso sonho parece, na verdade, uma grande fraude. A empresa, que se apresentava com o nome de Embaixada da Lua, oferecia terrenos a 298 yuanes (algo como R$ 81,00) por 0,4 hectare. Para as autoridades de controle citadas pelo jornal, a venda de terrenos na Lua não passava de uma fraude. Pelo menos 34 pessoas sucumbiram à tentação de ter um pedacinho da Lua antes de as atividades da empresa serem suspensas. Disponível em: <http://noticias.uol.com.br/tabloide/tabloideanas/2005/12/08/ult1594u720.jhtm>. Acesso em: 8 maio 2017. Adap ALGUÉM PAGARÁ Sobre a mesa, uma xícara de chá fumegante, na televisão o noticiário. Ari se arruma para o trabalho, pensando em como enfrentará mais um dia. Ele não gosta de trabalhar, mas precisa. Já pronto, pega a xícara e começa a bebericar o líquido e prestar atenção ao n...

No país do futebol – Crônica de Carlos Eduardo Novaes

Juvenal Ouriço aproximou-se de um vendedor parado à porta de uma loja de eletrodomésticos e perguntou: – Qual desses oito televisores os senhores vão ligar na hora do jogo? – Qualquer um – disse o vendedor desinteressado. – Qualquer um não. Eu cheguei com duas horas de antecedência e mereço uma certa consideração. – Para que o senhor quer saber? – Para já ir tomando posição diante dele. O vendedor apontou para um aparelho. Juvenal observou os ângulos, pegou a almofada que o acompanhava ao Maracanã e sentou-se no meio da calçada. – Ei, psiu – chamou-o um mendigo recostado na parede da loja – como é que é, meu irmão? – Quer me botar na miséria? Esse ponto aqui é meu. – Eu não vou pedir esmola. – Então senta aqui ao meu lado. – Aí não vai dar para eu ver o jogo. – Na hora do jogo nós vamos lá pra casa. – Você tem TV em cores? – Claro. Você acha que eu fico me matando aqui pra quê? Juvenal agradeceu. Disse que preferia ficar na loja, onde tinha marcado encont...

Futebol de rua – Crônica de Luis Fernando Veríssimo

Pelada é o futebol de campinho, de terreno baldio. Mas existe um tipo de futebol ainda mais rudimentar do que a pelada. É o futebol de rua. Perto do futebol de rua qualquer pelada é luxo e qualquer terreno baldio é o Maracanã em jogo noturno. Se você é homem, brasileiro e criado em cidade, sabe do que eu estou falando. Futebol de rua é tão humilde que chama pelada de senhora. Não sei se alguém, algum dia, por farra ou nostalgia, botou num papel as regras do futebol de rua. Elas seriam mais ou menos assim: DA BOLA – A bola pode ser qualquer coisa remotamente esférica. Até uma bola de futebol serve. No desespero, usa-se qualquer coisa que role, como uma pedra, uma lata vazia ou a merendeira do seu irmão menor, que sairá correndo para se queixar em casa. No caso de se usar uma pedra, lata ou outro objeto contundente, recomenda-se jogar de sapatos. De preferência os novos, do colégio. Quem jogar descalço deve cuidar para chutar sempre com aquela unha do dedão que estava precisando ser ap...