A tristeza de perder um escritor

Perder um ídolo é como perder um amigo. Todo fã já sentiu essa dor, não importa do que e de quem sejamos fãs. Mas tenho a impressão de que os fãs de literatura sofrem mais. Talvez seja da natureza da atividade, que não nos dá tempo para nos prepararmos para a perda. Torcedores apaixonados começam a experimentar o luto quando seus ídolos no esporte se aposentam. Quem ama música está acostumado às turnês de despedida, uma forma humana e lucrativa de preparar fãs e ídolos para o fim. Não há nada parecido na literatura. São raríssimos os autores que fazem como Philip Roth e anunciam sua aposentadoria quando ainda têm plenas condições de produzir. Pelo contrário. Para nossa sorte, a maioria segue trabalhando e encantando leitores enquanto saúde permite, numa velhice cheia de eventos e projetos literários. Nossos heróis sempre morrem no auge.
Daí vem a nossa dificuldade para lidar com dias difíceis como esses. De uma hora para outra não temos mais João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e, agora, Ariano Suassuna. Nunca perdemos tanto em tão pouco tempo, e nunca estivemos preparados.
A literatura virou um assunto triste. Na internet, cada um busca a melhor maneira de homenagear seu escritor favorito. Frases, fotos e casos tentam resumir o irresumível e captar em poucas linhas a essência de quem deixou milhares de páginas para seus leitores.
Além de demonstrar o carinho dos leitores, essas homenagens ajudam a levar um pouquinho da obra desses escritores para quem nunca teve a sorte de conhecê-los em vida. É a única notícia boa nesses dias difíceis para a literatura brasileira. Nunca se falou tanto em João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna. Mesmo quem só leu meia dúzia de páginas vira fã, e divulga o trabalho do ídolo para quem não o conhecia nem de nome.
Há fãs antigos que se revoltam contra os recém-convertidos. Reclamam que basta um escritor morrer para que todos se tornem seus admiradores. Que os novos fãs são movidos não pelo amor à obra do autor, mas pela vontade de participar da comoção coletiva. Sentem que são um pouquinho "donos" do autor por tê-lo conhecido antes, e que, por isso, a dor deles é maior do que a da maioria.
Talvez estejam certos. Cada um lida com o luto à sua maneira. Mas talvez a melhor forma de homenagear o escritor seja acolher os novos fãs em vez de reprová-los. "Eu sei que vou morrer, mas meus personagens ficarão todos com vocês", disse Suassuna em sua última aula. Quanto mais pessoas conhecerem seus textos, mais vivo estará o autor. Para honrar a memória de um escritor, nada melhor do que consumi-lo e espalhá-lo. Ler sua obra e cuidar para que ela seja lida.
Além de demonstrar tristeza por perder um ídolo, é hora de lembrar por que eles merecem tantas homenagens. Reler nossos textos favoritos, descobrir livros que ainda não conhecíamos e compartilhar nossas descobertas com outros leitores. Por que não aproveitar o momento para finalmente criar coragem para enfrentar A pedra do reino, ou reencontrar o Sargento Getúlio? Quando um grande escritor morre, a leitura é a melhor homenagem possível. Talvez a única homenagem à sua altura.

Danilo Venticinque



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