Ajuste as flexões do verbo aos marcadores temporais | Revista Língua Portuguesa


Marcadores temporais são vocábulos ou expressões que indicam o momento em que os fatos acontecem. Entre eles estão os advérbios (ontem, depois, outrora...), as locuções adverbiais (em breve, no futuro, de quando em quando...), as conjunções ou locuções conjuntivas (quando, logo que, sempre que...) e as preposições (em, após, desde, durante...).

Esses marcadores determinam os modos e tempos verbais, o que nem sempre é observado pelos alunos. As confusões são comuns com determinadas preposições ou locuções prepositivas (em, desde, durante, a partir de). Eis alguns exemplos retirados de redações:

1) Nessas últimas semanas foi e é muito comum ouvirmos falar em noticiários sobre o famoso “rolezinho”.  

2) Desde o início da colonização, a riqueza estava concentrada nas mãos de poucos.

3) Desde a Antiguidade, o desejo de adquirir status influenciava a vida das pessoas.

4) Durante três dias, eu e meu marido andávamos de abrigo em abrigo em busca de notícias do meu filho.

5) A partir da Segunda Revolução Industrial, bens de consumo estão sendo produzidos em massa.

Um dos valores da preposição “em” é o de localização no tempo (Estamos no verão). Esse conectivo permite que o verbo apareça em forma simples ou composta (“No inverno, são constantes as chuvas”; “Neste inverno, têm sido constantes os deslizamentos”).

A forma composta (no caso, o perfeito) indica a frequência de uma ação passada que se estende ao presente. O aluno deveria ter optado por ela em (1) para indicar a constante presença do rolezinho nos noticiários. Em vez disso, associou perfeito e presente (escrevendo “foi e é”, em vez de “tem sido”). O resultado é que cometeu uma incoerência, pois o adjetivo “últimas” remete o acontecimento ao passado e não se harmoniza com o presente do verbo “ser”.

Os exemplos (2) e (3) mostram um equívoco muito comum no uso da preposição “desde”. Quando associada a “até”, ela delimita a referência temporal e determina o verbo no passado. Quando vem só, dá a entender que o marco temporal se estende à atualidade.   

Assim, “desde o início da colonização a riqueza está (e não ‘estava’) concentrada nas mãos de poucos” (o uso do presente, por sinal, enfatiza que isso nunca deixou de ocorrer ao longo da História). Da mesma forma, “desde a Antiguidade o desejo de status influencia (e não ‘influenciava’) a vida das pessoas” (outra verdade atemporal!).

“Durante” corresponde ao antigo particípio presente do verbo “durar”. Admite verbo no presente (Durante as aulas, poucos falam) ou no pretérito. O tipo de pretérito vai depender de a ação estar ou não concluída. Em (4) ela se concluiu, conforme se vê pela delimitação em “três dias”. Logo, o adequado não é o uso do imperfeito (andávamos), e sim o do perfeito (andamos).

No exemplo (5), o problema é que a locução verbal escolhida indica continuidade no presente. Pode-se até afirmar que a partir da Segunda Revolução Industrial “produzem-se” (em vez de “produziram-se”) bens de consumo em massa; esse tipo de licença chama-se enálage. Mas não é adequado dizer que eles “estão sendo produzidos”. Afinal, a revolução a que o aluno se refere ocorreu na segunda metade do Século XIX. 



Chico Viana é professor de português e redação. www.chicoviana.com

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